9.04.2012

O ditador-diplomata de África

                                                       
Lisboa-A morte recente em Bruxelas do primeiro-ministro etíope Meles Zenawi trouxe finalmente a lume a razão do seu misterioso desaparecimento da vida pública durante dois meses. O governo da Etiópia negara exaustivamente rumores de problemas sérios de saúde causados por cancro do fígado. Agora que o pior, infelizmente, se verificou, a Etiópia e toda a África Oriental precisarão de aprender a viver sem a influência estabilizadora do seu grande ditador-diplomata.

Fonte: O Publico.pt

Meles foi certamente as duas coisas. A Etiópia sofreu uma transformação notável sob a sua liderança forte desde 1991, quanto o seu grupo de minoria tigré do norte do país chegou ao poder depois de derrubar o odioso Derg comunista liderado por Mengistu Haile Mariam (ainda confortavelmente aposentado no Zimbabwe de Robert Mugabe).

Servindo inicialmente como presidente do primeiro governo pós-Derg, e depois como primeiro-ministro da Etiópia de 1995 até à sua morte, Meles (o seu nom de guerre na revolução) supervisionou um crescimento anual do PIB de 7,7% em anos recentes. O bom desempenho económico é algo surpreendente, dada a abordagem politicamente intervencionista do seu partido, mas Meles mostrou ser um pragmatista consumado quanto à atracção de investimento – especialmente proveniente da China – para sustentar o crescimento.

A própria proveniência política de Meles enquanto líder da Frente de Libertação do Povo do Tigré era marxista-leninista. Mas, quando a Guerra Fria terminou, assim, também, aconteceu ao seu dogmatismo. Honra lhe seja feita, a mortalidade infantil foi reduzida em 40% sob o seu governo; a economia da Etiópia tornou-se mais diversificada, com novas indústrias como fabrico de automóveis, bebidas e floricultura; e importantes projectos de infra-estruturas, como a maior barragem hidroeléctrica de África, foram lançados. Outrora um caso perdido associado aos olhos do mundo apenas com fome e seca, a Etiópia tornou-se uma das maiores economias de África – e sem o benefício do ouro ou do petróleo.

Talvez mais importante que as conquistas nacionais de Meles tenha sido o seu historial diplomático. Foi um aliado indispensável do Ocidente na luta contra o terrorismo islâmico, culminando na operação militar da Etiópia na vizinha Somália em 2006. Mais recentemente, Meles coordenou esforços com o Quénia para lançar ataques limitados contra a milícia al-Shabaab, que tem levado a cabo uma guerra implacável para transformar a Somália numa teocracia islâmica fundamentalista.

Ao mesmo tempo, Meles cortejou a China simultaneamente como investidora e como uma protecção contra as críticas ocidentais em matéria de direitos humanos. E, contudo, controversa mas justamente estendeu uma mão amiga à região rebelde da Somalilândia, antes de isso se tornar moda, e fez tudo o que podia até ao re-reconhecimento formal desse raio de esperança democrática no Corno de África. A falta de Meles será bastante sentida em Hargeisa, já que planeava instalar uma conduta de gás financiada pela China através de território da Somalilândia de Ogaden até à costa.

Mais importante, Meles colocou Adis Abeba no mapa como sede da União Africana, e como uma capital onde os piores problemas da África podiam ser discutidos de um modo pragmático, sem o fardo dos ressentimentos coloniais. O próprio Meles se tornou um jogador diplomático importante, especialmente em políticas relativas a mudanças climáticas, e foi recentemente activo na mediação de disputas fronteiriças e de recursos naturais entre o Sudão e o recentemente independente (e rico em petróleo) Sudão do Sul. Será lembrado por aceitar a dolorosa secessão da Eritreia em 1993, em vez de prolongar a guerra civil, e pelos seus esforços em conseguir um acordo com o Egipto sobre a utilização das águas do Nilo Azul.

A grande mancha na reputação de Meles será sempre a sua intolerância à oposição. De facto, o seu registo de direitos humanos foi muito melhor que o do Derg. Por exemplo, permitiu que uma imprensa privada florescesse, e em 2000, tornou-se o primeiro líder etíope a organizar eleições parlamentares multipartidárias. Além disto, comparado com a vizinha Eritreia sob o Presidente Isaias Afewerki ou com o Sudão de Omar al-Bashir, o seu regime não era nem por sombras o pior infractor na região. Nem existiam muitas provas de enriquecimento pessoal ou de corrupção generalizada.

Não obstante, no rescaldo de uma eleição parlamentar violentamente contestada em 2005, onde participaram mais de 30 partidos, Meles demonstrou um desprezo aberto pelo pluralismo democrático e pela liberdade de imprensa, aprisionando vários jornalistas nos últimos anos. Ao mesmo tempo, impôs um controlo central cada vez mais rigoroso ao seu país, étnica e linguisticamente diversificado.Embora nominalmente governado pelo “federalismo étnico”, onde isso ameaçava secessão, como em Oromia ou no Ogaden, Meles foi rápido a ignorar o enquadramento constitucional. Embora tenha fortalecido a liberdade religiosa e a coexistência pacífica entre muçulmanos e cristãos, a situação dos direitos humanos na Etiópia permaneceu sofrível. Por exemplo, grupos como a Freedom House e a Human Rights Watch documentaram a repressão oficial generalizada sobre o povo Oromo.

E no entanto Meles é insubstituível – intelectualmente sem comparação como líder africano (abandonou o curso de Medicina, mas aprendeu um inglês impecável e obteve graus universitários europeus por correspondência), e politicamente sem comparação no seu país, sem um sucessor óbvio preparado para o substituir. No Corno de África, não há um líder da sua estatura que possa assegurar a estabilidade e o forte governo de que a região necessita tão desesperadamente.

Hailemariam Desalegn, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Meles, assegurará o governo da Etiópia. Mas existirá preocupação considerável no Ocidente quanto ao perigo de um vácuo de poder ou de lutas num país geopoliticamente vital mas instável – e logo quando se espera que a vizinha Somália se submeta a uma transição para um novo parlamento e um novo governo eleito.

Tanto aos seus admiradores como aos seus críticos, Meles deixa um potente legado político. Será lembrado como um líder africano de importante significado histórico: visionário, despótico e indispensável.

Traduzido do inglês por António Chagas/Project Syndicate

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